terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

RETRATOS DA NOSSA ERA

Reno Viana *


@Pontifex_pt
O Papa no Twitter
 
Estava no fórum, esta semana, em uma reunião na qual explicava para algumas pessoas um novo projeto social que estamos iniciando, quando certa pessoa comentou que eu deveria ser professor, dar aulas em uma faculdade qualquer, em face da minha suposta facilidade de comunicação. Revelei então para essa pessoa que já tinha sido professor, no passado, na verdade ainda no século passado, quando tive a honra de lecionar na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) - mas que tinha decido abandonar a docência.
 
Para minha surpresa, a referida pessoa, mostrando ser muito versada em matéria de religião, citando a parábola bíblica dos talentos (cf. Mateus 25, 14-30), praguejou que no futuro eu responderia no Juízo Final por ter renunciado ao magistério. Preferi não discutir esse assunto naquele momento, para não desviar o foco do tema que estávamos tratando na ocasião. Afinal, meu pensamento sobre a matéria escatológica era bem diferente do dela.
 
A propósito, para quem se interessa sobre o fim do mundo e o Juízo Final, recomendo a leitura de dois surpreendentes livros escritos pelo teólogo Renold Blank, intitulados respectivamente Escatologia da Pessoa e Escatologia do Mundo, obras que tratam do projeto cósmico de Deus, dialogando com a filosofia e a ciência, em uma visão bem próxima da minha.
 
De qualquer sorte, começo agora no presente texto a rascunhar minha defesa para a hipótese de algum dia ter que responder no Juízo Final, conforme vaticinou minha amiga praguejadora. Imaginando que por lá também vigorarão os princípios universais do contraditório e da ampla defesa, começo aqui a esboçar minha tese defensiva, enveredando pelos caminhos da negativa de autoria. Pretendo aqui argumentar que não era bem assim, que na realidade eu nunca tinha abandonado o magistério e que continuara a exercer a docência, embora de forma singela e tosca, agora através da minha atuação na internet, participando ativamente das chamadas redes sociais.
 
Ora, afinal desde janeiro de 2011 mantenho na internet um blog, o Liberdades Democráticas (aqui), para o qual inclusive escrevi o presente texto, continuando grosseiramente a lecionar...
 
Talvez fosse importante esclarecer minha metodologia de trabalho. Dizer que no meu blog posto prosa, verso, imagens, mas que o utilizo mesmo é para organizar e contextualizar ideias. Alegar que, em paralelo ao blog, sirvo-me igualmente do Facebook e sempre posto reflexões no Twitter também. Elucidar que, na minha metodologia, utilizo o Facebook para encontrar pessoas, aquelas que conheço ou as que quero conhecer, e que no Twitter leio notícias, troco mensagens com amigos e, como se adapta bem ao meu ritmo, aproveito para ali depositar ideias que depois talvez eu venha a desenvolver.
 
Nas minhas postagens, de maneira deliberada, faço sempre questão de partir da subjetividade, da minha realidade imediata de juiz criminal nos sertões da Bahia, para desse ponto de vista enxergar o mundo e tentar interpretá-lo. Não me preocupo em ter muitos seguidores ou leitores. Meu objetivo maior, em um mundo desmedidamente entulhado de informações, seria tentar distinguir o que é de fato relevante daquilo que é apenas mistificação.
 
Talvez alguém que leia meus textos possa perguntar por que, sendo juiz de direito, não foco minha atenção nos temas estritamente jurídicos. A resposta a essa pergunta implicaria em confessar certo desencanto, uma dolorida certeza de que o direito, na realidade, muitas vezes mente, e a convicção de que chega a ser ingenuidade não perceber que a atividade jurídica é emoldurada por completo pelos fatos sociais. (cf. "Quando o direito mente")
 
Assim, na construção de um pensamento ainda informe, estudando e refletindo sobre a crítica do direito, descobri que o tema sociologia da sociedade brasileira seria a área principal dessa nossa singela e tosca docência nas redes sociais. Nesse magistério, se a nossa filosofia é Deísta, a nossa perspectiva científica por outro lado é sempre no sentido de, tornando inseparáveis o saber e a vida, congregar teoria e prática, sem nunca descrer no acerto dessa conjugação.
 
A esta altura, para alguns, talvez eu esteja escrevendo bobagens, disparates sem qualquer valor. Nesse sentido, por exemplo, poderia citar o meu velho dicionário Michaelis de inglês-português, que depois de traduzir twitter como gorjeio ou trinado, curiosamente informa que essa palavra também significa “falar rápido e alto sobre coisas sem importância devido ao fato de estar nervoso”. Por essa definição, talvez se pudesse imaginar que a rede social batizada com tal nome fosse algo de importância menor.
 
No entanto, uma das imagens mais representativas da época que estamos vivendo serve para afastar tal equívoco.
 
No final do ano passado, o Vaticano divulgou as surpreendentes fotos do próprio Papa Bento XVI manuseando um tablet, sob os espantados olhares de alguns membros da Cúria Romana. Na oportunidade, era informada a presença de Sua Santidade nas redes sociais.
 
Ora, é forçoso reconhecer que o Papa não é uma mera celebridade, alguém que estivesse apenas buscando os holofotes da mídia. Não foi à toa que, nessa mesma ocasião da divulgação das fotos acima referidas, a Igreja Católica recomendou que seus fiéis estivessem também presentes nas redes sociais, reforçando a ideia de que os cristãos devem participar da vida social e serem, onde estiverem, um posto avançado da graça de Deus.
 
Fazer predições sobre o futuro é uma tarefa inglória, pois não temos como adivinhar o que está por vir. No entanto, é certo que o Papa Bento XVI será sempre lembrado pela sua renúncia ao pontificado neste mês de fevereiro de 2013, quaisquer que tenham sido os motivos que o levaram a tal gesto. Mas também é certo que nós estamos vivendo em plena era da revolução digital e do espantoso desenvolvimento da tecnologia da informação. Nesse contexto, a imagem do Papa com o seu tablet, acessando o Twitter, será também lembrada como um dos retratos mais significativos do nosso tempo atual. 
 
Assim, essa foto evidencia a importância das redes sociais na nossa época. Na medida em que podem ser acessadas até mesmo pelo telefone celular, elas trouxeram o mundo inteiro para a palma das nossas mãos. Sabe-se que é um novo capítulo de uma longa evolução. Ao longo da história da humanidade, os novos meios de comunicação sempre trouxeram uma nova atitude frente ao mundo, e foram uma admirável forma de ampliação das nossas possibilidades existenciais.
 
Todas essas observações, enfim, querem apenas louvar a linguagem e a comunicação, que nos permitem aprender uns com os outros e podem ser valiosas ferramentas para a expansão da nossa consciência individual.
 
 
@LeonardoBoff, @freibetto
Presenças fortes nas redes sociais


* Reno Viana é Juiz de Direito na Bahia e membro da Associação Juízes para a Democracia.


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